Anna Karenina (2012) - Crítica

Anna Karenina (2012) – Crítica: Seria uma inútil redundância ficar enaltecendo a obra de Liev Tolstoi, que nos deu clássicos como este Anna KareninaGuerra e Pazdentre outros.

Para o cinema, este já teve várias adaptações como a de Greta Garbo lá nos longínquos 1935,  a impecável versão inglesa com a eterna Scarlett O´Hara Vivien Leigh em 1948, um telefilme com Jaqueline Bisset e Christopher Reeve em 1985 e outro  com Sophie Marceau e Sean Bean ( o Ned Stark de “Game of Thrones”)  em 1997, que foi a primeira versão americana totalmente filmada na Rússia.

Cada um tem seu charme especial. ,mas acredito que nenhuma venha a ter o impacto estético dessa versão de Joe Wright (em seu terceiro trabalho dom a atriz Keira Knightley), que consegue se diferir de todas elas e fazer como se estivéssemos diante de um material inédito, justamente pela maneira como conduz a narrativa.

Estamos no teatro.

Rússia Imperial, 1874.

Estamos na casa do Príncipe  Stepan “Stiva” Oblonski em Moscou e de sua esposa Daria Dolly, que acaba de descobrir seu relacionamento com sua governanta. Ela o expulsa de casa, proibindo-o de ver seus filhos novamente.

Estamos no teatro.

Anna Karenina aparece lendo a carta escrita por sua irmã enquanto se arruma.

Estamos no teatro! Sim, literalmente!

Nos primeiros três minutos de filme já temos intensas trocas de cenários, que sobem e descem em questão de segundos, ambientando-nos em locais diferentes e mostrando-nos que a narrativa nos será apresentada de maneira um tanto diferente.

Anna está no trem para Moscou para visitar a irmã e apoiá-la, quando conhece a condessa Vronskaya.  

Ao chegar a Moscou, conhece o Conde Vronsky (Aaron Taylor Johnson, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante em 2016 por Animais Noturnos) e a atração por eles é imediata, dando inicio a toda trama de adultério, sofrimento, libertação e tragédia.

Tudo no filme é bonito e atraente. Desde os figurinos de Jaqueline Durran (premiados com o Oscar e marcando sua terceira parceria com o diretor)  até os cenários, muito bem colocados na metáfora do teatro (estaríamos todos representando papeis nessa sociedade hipócrita?) e as interpretações.

Deixem-me chamar atenção um pouco para Keira. Essa jovem atriz inglesa chamou atenção nos anos 2000 por seus papeis de época em filmes como A Duquesa e Orgulho e Preconceito, pelo qual levou sua primeira indicação ao Oscar. A segunda veio  por O Jogo da Imitação já em 2014.

Suas  parcerias com o diretor Joe Wright também são notórias. ( é a terceira vez que trabalham juntos. As outras foram Orgulho e Preconceitoo excelente Desejo e Reparação, onde usa o famoso vestido verde que foi copiado à exaustão).

De traços bem característicos, ela  se encaixa como uma luva neste tipo de papel e imprime a Anna uma qualidade bem peculiar, não a faz vítima, mas também não a faz inocente e ingênua demais. Ela é o que Anna é.

Uma mulher que sofre por amar e que paga o preço por isso ( a clássica cena final do romance está presente também, mas não vamos estragar o prazer de quem ainda não conhece a história.) É bom vê-la na tela. Ela fotografa bem.  Particularmente é uma atriz que me encanta e pode ser vista em outros filmes considerados mais comerciais como Piratas do Caribe – A Vingança de Salazar de 2017.

Jude Law faz o marido traído e também trás uma suavidade para o papel que não foi vista nas representações anteriores. Seu Karenin é um homem humano, com falhas e qualidades, e não um carrasco burocrata que não casou por amor como mostram as outras versões e o livro.

Ele sofre aquela situação tanto quanto a mulher e isso está expresso convincentemente. O amante, Conde Vronski, é interpretado por Aaron Taylor Johnson, mais conhecido por seus papeis menos sérios em filmes como Kick Ass  e por sua personificação de John Lennon em Nowhere Boy.

Já levou o Globo de Ouro mas confesso que não ele  não me chamou a atenção. Faltou, para se dizer numa linguagem mais popular, “pegada” ao seu Conde para dar equilíbrio ao triângulo. Mas isso não atrapalha em nada o teor do filme. Talvez se fosse interpretado por outro ator teria sido mais interessante.

Estamos no teatro!

Estamos no cinema.

Estamos no teatro novamente!

É essa troca de perspectiva que trás ao filme seu diferencial. A metáfora do teatro somente se desfaz na personagem do fazendeiro Levin com sua paixão mais calma com Kitty (a hoje oscarizada Alicia Vikander), em um amor que vai se construindo aos poucos e com todos os rituais da época, contrastando com o  romance central.

Estaríamos todos representando? É a pergunta que fica.

Quando as coisas começam a se revelar e as máscaras começam a cair vamos nos libertando de certas encenações e nos tornando mais livres. As personagens parecem menos sufocadas e presas ao tradicional e começam a se relevar, e a segunda parte da fita é mais ágil nesse sentido.

E aí fica outro questionamento: a sociedade russa que critica e aponta os amantes como criminosos seria muito diferente da nossa sociedade hoje? Amores como o de Anna e Vronski continuam a chocar e a incomodar? Por que o que o outro faz da vida dele nos diz tanto respeito? Acho que são questões bem atuais.

Reparem bem como tudo é bem ensaiado e coreografado nas cenas da corte imperial ( na dança de Anna e Vronski ou quando as pessoas confabulam sobre os dois em um sarau.  Também nas cenas que representam a burocracia em que Karenin vive – os funcionários carimbando os documentos mostram como o meio é mecânico e robótico) e mais densas e impactantes quando mostram o amor proibido, Ou seja, seguem um gesso, um molde quando se trata das convenções e impactam quando se trata de quebrar regras. A fotografia em azul em um dos momentos chaves do filme também chama atenção.

Assisti ao filme quando de seu lançamento no Brasil e o revi recentemente em uma versão simples em DVD, sem extras nem nada. Realmente o tempo passa e alguns filmes mostram que vieram para ficar. Mas afirmo que é um filme de extremos, existem alguns que não irão gostar e me chamar de louco por essa resenha. Deixo isso a critério de vocês, já me alonguei demais.

É um filme para ser visto e revisto. Apresenta algumas falhas, mas nada que estrague o resultado final. Joe Wright e Keira realmente fazem belo par.

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